18/01/10

A NORMALIZAÇÃO GLOBAL

A recente explosão dos jogos nas redes sociais, sobretudo no Facebook (não apenas porque é a mais numerosa rede mas sobretudo porque é a que melhor se adapta a esse tipo de experiência) veio enfatizar as épocas especiais do calendário e, consequentemente, o modo como nos relacionamos com os outros nesses referidos momentos

A maioria destes jogos, e em especial os da Zynga (Mafia Wars, Farmville, Yoville, Café World, etc.) abordaram a época do Natal e do Ano Novo introduzindo uma panóplia de novos conteúdos dos quais listo apenas alguns a título de exemplo: uma árvore de Natal onde se guarda as prendas enviadas pelos amigos (o que pode repetir-se uma vez por dia) e que se abrem no dia 25 de Dezembro; suplementos ("boosts") para combates que são garrafas de campanhe; fogo de artifício que se pode lançar na última noite do ano. (...)

É óbvio que já antes o Facebook tornou possível enviar deliciosos ícones aos amados no dia 14 de Fevereiro ou parabenizar os aniversários dos amigos. Melhor: agora é quase impossível esquecer as datas desses aniversários, basta estar ligado ao computador, tudo pode ser automatizado. Neste caso há dois efeitos imediatos da Rede: não só alargamos um certo tipo de comportamento que antes estaria reservado a amigos mais próximos, como dependemos (é uma opção, não uma condição) desses sistemas técnicos para gerir uma boa parte das nossas vidas sociais.

Mas o fenómeno mais marcante parece-me ser a definitiva instalação do calendário Ocidental e cristão a nível global. Na verdade a parte maior da população mundial não começou um novo ano a 1 de Janeiro (nem sequer vivem no ano 2010) nem celebram o nascimento de Cristo, ou melhor, Cristo não pertence à sua mitologia religiosa. Têm-nos aturado estas particularidades porque o Ocidente ainda é o motor da economia e porque, sendo óbvio que tem de existir um norma-padrão para conseguirmos entender -nos uns aos outros, porque não a dos tipos que inventaram os computadores e os sistemas operativos? (os relógios mais importantes nos dias de hoje).

Verdade é que que vi vários amigos que vivem noutros calendários e professam outras crenças a aderir alegremente a estas pequenas diversões de Natal e Ano Novo. O efeito do Facebook, e outras redes sociais, pode vir a demonstrar-se mais avassalador que os muitos missionários que daqui partiram durante séculos. É a normalização global, total.

Dr. Bakali, O Ponto de Fuga (Blog JL)

26/12/09

A CAPITAL PORTUGUESA ESTÁ A PERDER SALAS DE CINEMA

Ir ao cinema em Lisboa é, em 2009, uma experiência radicalmente diferente do que em décadas anteriores. São muitos os antigos cinemas da capital que entretanto foram desactivados, encontrando-se muitos espaços, inclusive, ao abandono.
Os antigos cinemas de Lisboa vivem actualmente três cenários distintos: uma ínfima parte continua em actividade, uns fecharam e viram o seu espaço reutilizado, e diversos outros encontram-se actualmente ao abandono, com situações urbanísticas indefinidas ou pendentes.
Londres, São Jorge, King e Monumental, com maiores ou menores alterações, são dos poucos espaços resistentes de outros tempos, sobrevivendo num tempo dominado pelos cinemas em grandes superfícies comerciais.
uma variante do consumo dos grandes centros comerciais". "As salas isoladas passaram a ser pouquíssimas porque o cinema passou a ser concebido como uma variante do género de oferta comercial dos grandes espaços", frisou o crítico, distinguido este ano pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) pela sua actividade como divulgador de cinema.
João Lopes partilhou com a agência Lusa uma memória vivida num dos antigos cinemas de Lisboa, que actualmente já não existe, o Alvalade: "Recordo-me de ver lá o 'Suspeita', de Hitchcock, filme do começo da d
Para o crítico e divulgador de cinema João Lopes, o cinema enquanto "fenómeno de consumo mudou radicalmente" nos últimos anos, predominando actualmente um "público acidental", que consome a sétima arte "como
écada de 1940 que vi algures durante o Verão de 1972 no Alvalade. Era um cinema arquitectonicamente muito especial. Tinha durante o Verão uma política de reposições e esta é uma memória que evoca o consumo de cinema com valores completamente diferentes dos de agora", frisa.
iOnLine, 26-12-09

11/11/09

Globalização

Fonte : http://takox.blog.ipcdigital.com/wp-content/uploads/2007/06/esportes0048.jpg

Novas formas de socialização primária ou socialização secundária precoce?

A socialização é um processo interactivo e gradual que se dá durante o desenvolvimento pode ser:
- primária que são os conhecimentos básicos, que ocorrem a partir da infância, modelos de comportamento morais e sociais, linguagem, etc. ;
- secundária que são os conhecimentos especializados, que integram o indivíduo em funções específicas na sociedade como a profissão, por exemplo.

Esta imagem representa as influências das tecnologias e da Internet em todas as fases da vida humana, até mesmo na infância (altura em que adquirimos os nossos conhecimentos básicos – socialização primária).


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhSqTAwQGhGAVsySYJufChrrmPaQYvLHNM9lafk7jjgMQBSIw8d_h6jZd0MS-4eE2lJgdtcSLvnspnGIDQk27y-DECZq4zyln_6lf_HDMEI9Of9fdiMjKclMqer8ICaE3LVXw7wnV7qHMOd/s320/socializa%C3%A7%C3%A3o.png

31/10/09

UMA ESTÓRIA

Uma professora do ensino básico pediu aos alunos que fizessem uma redacção sobre o que gostariam que Deus fizesse por eles.

Ao fim da tarde, quando corrigia as redacções, leu uma que a deixou muito emocionada. O marido, que, nesse momento, acabava de entrar, viu-a a chorar e perguntou:

- O que é que aconteceu?

Ela respondeu:

- Lê isto.

Era a redacção de um aluno.


Senhor, esta noite peço-te algo especial: transforma-me num televisor. Quero ocupar o lugar dele. Viver como vive a TV da minha casa. Ter um lugar especial para mim, e reunir a minha família à volta... Ser levado a sério quando falo... Quero ser o centro das atenções e ser escutado sem interrupções nem perguntas. Quero receber o mesmo cuidado especial que a TV recebe quando não funciona. E ter a companhia do meu pai quando ele chega a casa, mesmo quando está cansado. E que a minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar.. E ainda, que os meus irmãos lutem e se batam para estar comigo. Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E, por fim, faz com que eu possa diverti-los a todos. Senhor, não te peço muito...Só quero viver o que vive qualquer televisor.


Naquele momento, o marido disse:

- Meu Deus, coitado desse miúdo! Que pais!

E ela olhou-o e respondeu:

- Essa redacção é do nosso filho!

Em mail de Ana Moura

03/10/09

A SUBLIMAÇÃO DA ESPERTEZA

A esperteza é uma característica cada vez mais apreciada na sociedade portuguesa. Como se desse uma certa cor ao ambiente de depressão. Nos dias de hoje, ser esperto em Portugal não anda muito longe de ser herói: alguém que, num clima desfavorável, atinge os seus objectivos sem olhar a métodos nem problemas de consciência. Estes novos heróis, que o povo começou por encarar com reprovação mas já se resignou a olhar num misto de complacência, admiração e inveja, nada têm de altruísta. Ao contrário do Super-Homem ou do bombeiro que resgata a criança do fogo, não querem salvar ninguém. São apenas espertos. Mais do que sobreviver, fazem pela vida. Alguns têm até mais do que uma vida, o que dá imenso jeito. Falhada a primeira encarnação, podem sempre partir para mais tarde regressar do além-túmulo, um local naturalmente mortiço onde é fácil recarregar baterias (…).

Os portugueses veneram a esperteza. Todos os dias a perseguem e tentam incorporar na escala do seu pequeno poder individual, seja como condutores no trânsito ou como vulgares mamíferos na fila do supermercado. Em Portugal, os bons exemplos são menosprezados. Não basta ser competente, honesto, colocar brio no que se faz e, se não for pedir muito, fazer uso frequente dessa coisa chamada inteligência emocional - um conceito que nada tem de transcendente e que, depois de bem espremido, resume-se a respeitar e saber viver com os outros.

Acontece que pensar para lá do umbigo é sintoma de fraqueza neste país. Confunde-se com ingenuidade, falta de pulso. É neste contexto que os espertos vingam. Que vivem, morrem e ressuscitam
FRANCISCO CAMACHO, iOnline, 17-08-09

06/09/09

OS IDIOTAS DOMINAM

(...) O líder dos Nine Inch Nails (NIN), Trent Reznor, decidiu fechar todas as suas contas em redes sociais. Face­book, Twitter, MySpace, não sobrou uma. "Os idiotas domi­nam", escreveu Reznor, no últi­mo texto do blogue associado ao site dos NlN (o único que continua no ar). Reznor foi entupido com comentários ofensivos, demonstrações de ódio e ameaças anónimas, que atingiram também a sua noiva. A saída estratégica do cantor gótico/metal/industrial veio apenas dias depois de o site TechCrunch ter cancelado a sua conta no FriendFeed, devi­do aos ataques sucessivos (e pessoais) aos autores da pági­na. Os exemplos sucedem-se e são alarmantes. Que se passa com as redes sociais? Já não é só a executiva que perdeu uma proposta de emprego na Cisco porque foi falar disso no Twit­ter; é também a adolescente de 13 anos que se suicida por cau­sa da mãe de uma ex-amiga, que se fez passar por um namorado virtual no MySpace. Precisamos de regras naquele que era suposto ser o espaço mais livre do mundo: a inter­net. É uma ferramenta podero­sa demais para que continue esta ausência de enquadramen­to legal, esta passividade peran­te o que é possível fazer com ela. Aceitar que apenas espe­lha o bom e o mau do mundo físico, e portanto deve deixar-se como está, é correr o risco de criar um monstro com mais malefícios que vantagens. Onde não apenas há artistas insulta­dos de cinco em cinco minutos, mas também adolescentes que não distinguem o real do vir­tual e se enforcam no armário do quarto depois de uma dis­cussão no MySpace.

ANA RITA GUERRA, i, 04-08-09

22/08/09

COMEÇA HOJE O RAMADÃO

O Ramadão é o nono mês do calendário islâmico. É o mês durante o qual os muçulmanos praticam o seu jejum ritual (suam, م وْ صَ ), o quarto dos cinco pilares do Islão: professar e aceitar do credo, orar cinco vezes ao longo do dia, pagar dádivas rituais, observar as obrigações do Ramadão e fazer a peregrinação a Meca.

A palavra Ramadão encontra-se relacionada com a palavra árabe ramida, “ser ardente”, possivelmente pelo facto do Islão ter celebrado este jejum pela primeira vez num período quente.

Uma vez que o calendário islâmico é lunar, não é celebrado todos os anos na mesma data, podendo passar por todas os meses e estações do ano, conforme a progressão dos anos, porém sua duração é entre 29 e 30 dias. O mês inicia-se com a aparição da lua no final do mês de sha'ban (oitavo mês no calendário lunar muçulmano).

Este período é um tempo de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade, e vivência profunda da fraternidade e dos valores da vida familiar. Pede-se ao crente maior proximidade dos valores sagrados, leitura mais assídua do Alcorão, frequência à mesquita, correcção pessoal e autodomínio.

Durante todo o mês é observado o jejum (incluindo as relações sexuais), da alvorada ao pôr-do-sol. O crente deve, não só abster-se destas coisas, mas também não pensar nelas e manter-se concentrado em suas orações e recordações de Deus.

Bem antes da alvorada, durante a madrugada, há uma pequena refeição (Su-Hoor) que substitui o pequeno-almoço habitual e é considerado uma bênção enviado por Deus, segundo o Alcorão.

No término de cada dia, com o início do crepúsculo é obrigação do muçulmano quebrar o jejum imediatamente, mesmo antes da oração, devendo pronunciar, segundo Maomé, as seguintes palavras: "Foi-se a sede, hidrataram-se as veias, e alcançou-se a recompensa, com a permissão de Deus".

Segue-se o iftar ( راطفإ ), refeição que reúne os membros da família e os seus amigos, numa celebração de fé e de alegria. Após esta refeição, é prática social sair com a família para visitar amigos e familiares e reunirem-se para a prática da oração.

Actualmente, com a ampliação do diálogo interreligioso, algumas pessoas de outras religiões são convidadas a partilhar este momento de convívio e é cada vez mais frequente que cristãos ofereçam e celebrem um iftar para os seus amigos muçulmanos.

Fonte: Wikipédia

16/08/09

O QUE ACONTECE QUANDO SE LAMBE UMA LESMA AMARELA


(…) para a maioria das pessoas do mundo industrializado, a natureza é uma parte cada vez mais rarefeita nas nossas vidas. As crianças cresceram, durante mil gerações, a explorar os campos, a coçar-se por causa de plantas venenosas ou urticantes e a descobrir, à sua própria custa, o que é um ninho de vespas. Hoje isso já não é verdade. Paul, um aluno do quarto ano de San Diego, explicou-se muito bem: "Prefiro brincar dentro de casa, porque é lá que há tomadas de corrente." (…)

Só 2% dos lares dos EUA ficam em quintas, comparados com os 40% de 1900. Um estudo de três gerações que incidiu sobre grupos de crianças de 9 anos constatou que, em 1990, o raio de acção que era permitido às crianças explorar livremente era de apenas um nono do que fora em 1970.

Um estudo britânico constatou que as crianças têm mais facilidade em reconhecer personagens de desenhos animados japoneses, como Pikachu, Metapod e Wigglytuff do que animais e plantas nativas como a lontra, o carvalho, o escaravelho...

Louv chama a isto "nature deficit disorder" (síndrome de défice de natureza) e associa-o aos aumentos da depressão, da obesidade e da síndrome de défice de atenção. Bem, não vou jurar por nada disso, mas a verdade é que o livro dele chega a referir um estudo que indica que contemplar peixes faz baixar substancialmente a tensão arterial. (…)

Ah, e a lesma? Já houve um tempo em que a maioria das crianças sabia que, se lamber a parte de baixo de uma lesma-da-banana, a língua fica dormente. Para eles, é melhor isso do que tornarem-se eles próprios uns bananas e umas lesmas, com os sentidos embotados por ficarem fechados dentro de casa.

NICHOLAS KRISTOF, iOnline, 06-08-09

02/08/09

ALUNOS COM MÉDIAS MAIS ALTAS VÊM DE FAMÍLIAS ABASTADAS


Os cursos com médias mais altas, como Medicina, são tendencialmente preenchidos por alunos de famílias com mais recursos, revela um estudo na Universidade de Lisboa (UL), que conclui que o acesso ao ensino su­perior não é "apenas uma questão de mérito".
O estudo foi dirigido pela socióloga Ana Nunes de Almeida, coordenadora do Observatório dos Percursos dos Estudantes da UL, a partir de dados recolhidos junto de alunos que se matricularam pela primeira entre 2003 e 2008.
Num documento com as principais conclusões, os autores destacam que a actual população universitária tem vindo a diversificar-se desde os anos 80, "do ponto de vista das suas origens sociais, dos seus percursos ou expectativas individuais", trazendo para as universidades uma "geração numerosa de jovens provenientes de grupos com menores capitais culturais e económicos".
No entanto, segundo os dados recolhidos, as vagas dos Cursos que requerem notas mais elevadas, como Medicina, Belas Artes e Farmácia, são preenchidas principalmente por alunos com origem em famílias mais favorecidas, cujos pais são "quadros dirigentes e superiores das empresas ou da administração pública, especialistas das profissões científicas e intelectuais, técnicos e profissionais de nível intermédio".
Por outro lado, "as faculdades com notas de acesso mais baixas (Letras, Psicologia e Ciências da Educação) recrutam sobretudo alunos provenientes de famílias mais desfavorecidas, as filhas e os filhos de empregados administrativos, pessoal dos serviços e vendedores, operários e artífices", salienta o estudo.
Os autores destacam que quase 60 por cento dos caloiros da UL provêem de famílias mais favorecidas.
''As modalidades de acesso não são portanto apenas uma questão de mérito individual, mas um assunto de família num cenário de selecção social", concluem.

in GLOBAL Notícias, 02-03-2009

31/07/09

MESCLA CULTURAL NUM PAÍS HOSPITALEIRO

A diversidade cultural portuguesa pode tornar-se desconcertante: recebemos folhetos de um restau­rante indiano na Praça dos Restau­radores, da mão de um goês que fala um inglês perfeito, e encontramos brasileiros a servir em pequenos cafés portugueses. Também há João, «barman» africano de uma casa de fado de Alfama, e o timorense sorridente que espreme sumo de laranja natural para turis­tas. Ainda assim, talvez a experiência mais singular seja ouvir português com sotaque chinês numa pequena mercearia, numa viela calcetada da bela cidade nortenha do Porto.
A demografia da nova Europa multicultu­ral foi redefinida por gente vinda dos países outrora ocupados pelas potências coloniais. No século XXI, em Portugal - país de extra­ordinários navegadores -, o resultado é uma mescla muito interessante, que enriquece um país já de si cheio de interesse.
STAN DENHAM, Sunday Telegraph (Sydney), 28.09.08

30/07/09

O PAPA E O PRESERVATIVO

Cada vez que o Papa se pronuncia sobre a contracepção, e nomeadamente contra o uso do preservativo, o mundo, em especial o Ocidente, entra em convulsões. Desta vez, foi numa viagem a África e desde a França à última ONG ou à última consciência humanitária ninguém se esqueceu de protestar. O Papa é um irresponsável e um criminoso. O Papa é uma espécie de encarnação do Mal. Há aqui com certeza um equívoco. Suponho que ninguém estava à espera que em África, sobretudo em África, Ratzinger não dissesse uma palavra sobre o assunto e, dizendo, dissesse qualquer coisa diferente da doutrina ortodoxa da Igreja. Muito pelo contrário, do ponto de vista dele, era ali, numa situação extrema e manifestamente ambígua, que devia reafirmar o que julga ser a verdade. Para quem combate (ou simplesmente conhece) a epidemia de sida em África, a posição do Papa não tem desculpa. Recomendar a abstinência e a fidelidade (e ainda por cima, a título profiláctico) nunca serviu de nada em parte alguma. E em África muitas populações resistem ao preservativo não apenas por ignorância mas porque ele nega ou ameaça a sua cultura e a própria organização da sociedade. A palavra do Papa vem dar força a essa resistência (que, de resto, não beneficia o catolicismo) e provoca directamente milhares, se não milhões, de mortes. A fúria universal contra Bento XVI não custa a compreender. Só que o Papa não se guia nem age por uma lógica "prática" e científica. Aceita, presumo, as vantagens do preservativo. Só que não o pode aprovar sem trair a Igreja.Os valores de Bento XVI não são os valores de um governo, de uma ONG ou de um indivíduo que tenta limitar o imenso desastre da sida em África. São valores de outra ordem. São valores de uma ordem religiosa, que cada vez menos se percebem ou respeitam no Ocidente. Não vale por isso a pena discutir a moral sexual da Igreja (e do Papa). Vale a pena garantir que ela não invade a esfera da liberdade civil. Ora Ratzinger não andou por África a pedir que se proibisse o preservativo. Pediu aos católicos que prescindissem dele, em nome de uma perfeição que os católicos escolheram procurar. A influência dele é, neste capítulo, deletéria? Inegavelmente. Convém que ela não alastre em África (e na Europa)? Sem a menor dúvida. Mas sem esquecer que o Papa está no seu direito e no seu papel.

20/07/09

HÁ 40 ANOS: PRIMEIRO HOMEM NA LUA




AINDA HÁ QUEM JULGUE QUE TUDO FOI MENTIRA
Quatro décadas depois do primeiro contacto do Homem com a poeira inerte da Lua, sondagens referem que 6 % dos ame-ricanos pensam que as alunagens não poderiam ter acontecido. A chegada à Lua, um dos maiores feitos da raça humana, foi um embuste elaborado e desenvolvi¬do para fomentar o orgulho patriótico dos EUA, insistem muitos.
Examinam as fotografias das missões, procurando sinais de falsificação e afirmam que conseguem ver a bandeira dos EUA a flutuar naquilo que era supostamente o vazio do espaço. Exageram os riscos para a saúde das viagens através das ondas de radiação que envolvem o nosso planeta; subestimam a proeza tecnológica do programa espacial americano; e denunciam como crimes todas as mortes ocorridas nesse programa, relacionando-as com uma conspiração a nível mundial.
E embora não haja provas credíveis que consubstanciem estas afirmações, e a mera improbabilidade de se conseguir inventar um enredo tão gigantesco e mantê-lo secreto durante 40 anos seja um desafio à imaginação mais delirante, os negacionistas continuaram a amontoar acusações até hoje. (…)
"Há pessoas inteligentes e perfeitamente normais que acreditam nessas teorias da conspiração", diz Philip Plait, astrónomo e autor que contesta, exaustivamente, ponto por ponto, os argumentos dos teóricos da conspiração no seu site "Bad Astronomy".
Embora as pseudoprovas dos teóricos da conspiração possam ser facilmente refutadas, diz Plait, compreender os processos pode exigir conhecimentos históricos, fotográficos e científicos e respectiva metodologia. "Dá trabalho; muito trabalho", diz ele, "e a maioria das pessoas não o faz E, assim, essas coisas criam pernas para andar".

10/07/09

ERA NO CAMPO QUE SE CONSUMIA MAIS PÃO EM PORTUGAL

Quem vive na cidade come mais leite, queijo e iogurtes do que os que vivem no campo. Já nas zonas rurais, há uma maior apetência por cereais e pão que nas áreas urbanas. Assim se comia em Portugal há 20 anos. E hoje? Ninguém sabe, pois estas conclusões são do único inquérito alimentar nacional já feito. Que data de 1985.Com a disseminação de hipermercados pelo país, a maior ligação entre interior e litoral e a diversificação da oferta o mais natural é que muito tenha mudado. No entanto, o inquérito feito pelo Instituto Ricardo Jorge há duas décadas dá conta que, em média, cada português ingeria (sem contar com as bebidas) 1549 gramas de alimentos por dia e, embora as opções variassem em relação à situação geográfica, tanto urbanos como rurais equilibravam-se, com ligeira vantagem dos habitantes das cidades, que deglutiam mais uns gramas.Os alimentos mais consumidos eram, por ordem, a batata (309,3 gramas), o pão (252,1), o leite e iogurte (203,6) e as hortícolas (198,3). Consumia-se mais carne que peixe, mas a diferença não era substancial - 92 gramas de peixe para 122 de carne. Numa coisa, portugueses do campo e da cidade igualavam: o consumo de açúcar. A gulodice não dependia da geografia. Só que a quantidade consumida - 31,3 gramas era muito inferior ao consumo real do país, que se situava nas 81 gramas. Ou seja, conclui o estudo, deve ser nos cafés e restaurantes que se fazia a maior parte da ingestão de doces. Outro dado interessante: consumia-se 11 por cento de alimentos a menos do que os que se encontravam disponíveis no mercado. O Algarve era o campeão dos comedores de peixe, os habitantes no distrito de Évora não eram muito adeptos da batata e da fruta, o Alentejo adorava leite, os de Bragança abusavam das gorduras e os de Lisboa eram os maiores comilões de todos. No estudo não surgem, porém, informações sobre o consumo de sal.
ANA FERNANDES, Público, 14-03-2009

03/07/09

O FIM DO PENSAMENTO ÚNICO

No momento em que escrevo, os portugueses dispõem de duas visões muito diferentes sobre como sair da crise em que nos encontramos. De um lado, o «manifesto dos 28» e, do outro, o «manifesto dos 52». Para o primeiro, a solução é limitar o endividamento, o que implica uma drástica redução do investimento público, fonte de muitos males, sendo os maiores o TGV, o novo aeroporto e as auto-estradas. Para o segundo, a prioridade é a promoção do emprego e a capacitação económica, o que implica um forte investimento público (não necessariamente nos projectos referidos) pois só o Estado dispõe de instrumentos para desencadear medidas que minimizem os riscos sociais e políticos da crise e preparem o país para a pós-crise.
As diferenças entre os dois documentos são, antes de tudo, «genealógicas». O primeiro é subscrito por economistas, a grande maioria dos quais ocupou cargos políticos nos últimos 15 anos, e colaborou na promoção da ortodoxia neoliberal que nos conduziu à crise. O segundo é subscrito por economistas e cientistas sociais que, ao longo dos últimos 15 anos, tomam posições públicas contra a política económica dominante e advertiram contra os riscos que decorreriam dela (...).

Mas as diferenças entre os dois documentos são mais profundas que a descrição acima sugere. Separa-os concepções distintas da economia, da sociedade e da política.
Para o manifesto dos 28, a ciência económica não é uma ciência social, é um conjunto de teorias e técnicas neutras a que os cidadãos devem obediência. Pode impor-lhes sacrifícios dolorosos - perda de emprego ou da casa, queda abrupta na pobreza, trabalho sem direitos, insegurança quanto ao futuro das pensões construídas com o seu próprio dinheiro - desde que isso contribua para garantir o bom funcionamento da economia entendida como a expansão dos mercados e a lucratividade das empresas. O Estado deve limitar-se a garantir que assim aconteça, não transformando o bem-estar social em objectivo seu (excepto em situações extremas), pois mesmo que o quisesse falharia dada a sua inerente ineficiência.
Para o manifesto dos 52, a economia está ao serviço dos cidadãos e não estes ao serviço dela. Os mercados devem ser regulados para que a criação de riqueza social se não transforme em motor de injustiça social (...). Cabe ao Estado garantir a co
esão social, accionando mecanismos de regulação e de investimento para que a competitividade económica cresça com a protecção social. Para isso, o Estado tem de ser mais democrático e a justiça mais eficaz na luta contra a corrupção.

24/06/09

40 ANOS DO PAI DE TODOS OS FESTIVAIS



Woodstock foi anunciado como uma "Exposição Aquariana", organizado na fazenda de 600 acres de Max Yasgur, na cidade rural de Bethel, Nova York, de 15 a 18 de Agosto de 1969. O festival é o exemplo de uma era hippie e de contra-cultura no final dos anos 60.

Trinta e dois dos mais conhecidos músicos da época apresentaram-se durante fim de semana de chuva. perante meio milhão de fãs.Apesar de tentativas posteriores de emular o festival, o evento original provou ser único e lendário, reconhecido como uma dos maiores momentos na história da música popular.

21/06/09

ZAHI HAWASS, GUIA SUPREMO DA ARQUEOLOGIA

Porque há-de a arqueologia egípcia ser monopólio do secretário-geral do Conselho Superior de Antiguidades do Egipto, Zahi Hawass? Quer seja na rádio, na televisão ou nos jornais, tem o monopólio deste assunto e de tudo o que lhe possa estar relacionado, de perto ou de longe.
Seja a erosão da pirâmide de Saqqarah, a investigação do túmulo de Cleópatra e do seu amante Marco António, a descoberta dos despojos de um ministro de Ramsés ou a conservação dos restos de uma simples ser­va da rainha Nefertite, é Zahi Hawass que é chamado a falar. Mais ninguém (…).
É melhor do que Indiana Jones, Hércules, Super-Homem e Batman todos juntos. Não se contenta em falar em nome do Egipto, dos faraós, de reis e rainhas, está igualmente con­vencido de que detém a verdade.
A cada controvérsia, Hawass põe o seu ca­pacete de cientista - ou antes, o seu chapéu de Indiana Jones - e profere certezas abso­lutas e indiscutíveis. Raros são os jornalistas que ousam produzir uma reportagem ou um documentário sobre o assunto sem o pôr a intervir pelo menos uma vez.
Seguro de si, emite as suas «fatwas» [sen­tenças de iluminação divina] arqueológicas e varre de uma assentada os pontos de vista dos outros: «Claro que não, estão todos en­ganados!», dita. Ou em inglês: «No, theyare wrong!». Outra alternativa: «Não dizem a verdade, de maneira alguma». Enquanto ele continua «absolutamente certo»!
A sua atitude está em total contradição com espírito científico. É o contrário da modéstia que caracteriza um verdadeiro investigador, que sabe que não há verdade absoluta. Egip­tólogos do mundo inteiro - e são numerosos - nunca diriam «eu sei», antes «suponho». Não falam de «certeza», mas de «hipóteses». Esta prudência está muito mais de acordo com as ciências humanas e com o trabalho sobre objectos que têm milhares de anos. Mesmo nas ciências ditas puras, esta regra impõe-se. Não assistimos já a foguetões que explodiram em pleno voo?
IMAD ABDERRAZEQ, Courrier Internacional, Junho de 2009

14/06/09

A PRAGA DE PIOLHOS QUE GEROU MODA

Na viagem da família real portuguesa para o Brasil, há mais de dois séculos, em duas das naus houve praga de piolhos, obrigando as senhoras - aristocratas incluídas - a cortar o cabelo de forma radical. Quando chegaram ao Rio de Janeiro, foram imitadas por se pensar que a cabeça rapada era moda na Europa. Por que é que no Reino Unido se conduz pela esquerda? Henrique VIII da Inglaterra rompeu relações com o papado de Roma por este não lhe conceder a anulação do primeiro casa­mento (com a espanhola Catarina), para poder casar com quem amava. O rei proibiu então que se entrasse em Londres pelo lado direi­to, para contrariar o costume romano. Porque no passado, o lado esquerdo era considera­do maligno, como a superstição dizia que o canhoto era ruim, a minha mãe obrigou-me a escrever com a mão direita, e hoje escre­vo com as duas, porque nunca deixei de ser canhoto.
AROLDO MARTINS, Plenitude, nº72, Junho de 2009