26/12/09

A CAPITAL PORTUGUESA ESTÁ A PERDER SALAS DE CINEMA

Ir ao cinema em Lisboa é, em 2009, uma experiência radicalmente diferente do que em décadas anteriores. São muitos os antigos cinemas da capital que entretanto foram desactivados, encontrando-se muitos espaços, inclusive, ao abandono.
Os antigos cinemas de Lisboa vivem actualmente três cenários distintos: uma ínfima parte continua em actividade, uns fecharam e viram o seu espaço reutilizado, e diversos outros encontram-se actualmente ao abandono, com situações urbanísticas indefinidas ou pendentes.
Londres, São Jorge, King e Monumental, com maiores ou menores alterações, são dos poucos espaços resistentes de outros tempos, sobrevivendo num tempo dominado pelos cinemas em grandes superfícies comerciais.
uma variante do consumo dos grandes centros comerciais". "As salas isoladas passaram a ser pouquíssimas porque o cinema passou a ser concebido como uma variante do género de oferta comercial dos grandes espaços", frisou o crítico, distinguido este ano pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) pela sua actividade como divulgador de cinema.
João Lopes partilhou com a agência Lusa uma memória vivida num dos antigos cinemas de Lisboa, que actualmente já não existe, o Alvalade: "Recordo-me de ver lá o 'Suspeita', de Hitchcock, filme do começo da d
Para o crítico e divulgador de cinema João Lopes, o cinema enquanto "fenómeno de consumo mudou radicalmente" nos últimos anos, predominando actualmente um "público acidental", que consome a sétima arte "como
écada de 1940 que vi algures durante o Verão de 1972 no Alvalade. Era um cinema arquitectonicamente muito especial. Tinha durante o Verão uma política de reposições e esta é uma memória que evoca o consumo de cinema com valores completamente diferentes dos de agora", frisa.
iOnLine, 26-12-09

11/11/09

Globalização

Fonte : http://takox.blog.ipcdigital.com/wp-content/uploads/2007/06/esportes0048.jpg

Novas formas de socialização primária ou socialização secundária precoce?

A socialização é um processo interactivo e gradual que se dá durante o desenvolvimento pode ser:
- primária que são os conhecimentos básicos, que ocorrem a partir da infância, modelos de comportamento morais e sociais, linguagem, etc. ;
- secundária que são os conhecimentos especializados, que integram o indivíduo em funções específicas na sociedade como a profissão, por exemplo.

Esta imagem representa as influências das tecnologias e da Internet em todas as fases da vida humana, até mesmo na infância (altura em que adquirimos os nossos conhecimentos básicos – socialização primária).


Fonte: http://4.bp.blogspot.com/_eas5bwEZ2fA/SvrsXCZf6HI/AAAAAAAAAAw/ouka4vSRnNs/s320/socializa%C3%A7%C3%A3o.png

31/10/09

UMA ESTÓRIA

Uma professora do ensino básico pediu aos alunos que fizessem uma redacção sobre o que gostariam que Deus fizesse por eles.

Ao fim da tarde, quando corrigia as redacções, leu uma que a deixou muito emocionada. O marido, que, nesse momento, acabava de entrar, viu-a a chorar e perguntou:

- O que é que aconteceu?

Ela respondeu:

- Lê isto.

Era a redacção de um aluno.


Senhor, esta noite peço-te algo especial: transforma-me num televisor. Quero ocupar o lugar dele. Viver como vive a TV da minha casa. Ter um lugar especial para mim, e reunir a minha família à volta... Ser levado a sério quando falo... Quero ser o centro das atenções e ser escutado sem interrupções nem perguntas. Quero receber o mesmo cuidado especial que a TV recebe quando não funciona. E ter a companhia do meu pai quando ele chega a casa, mesmo quando está cansado. E que a minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar.. E ainda, que os meus irmãos lutem e se batam para estar comigo. Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E, por fim, faz com que eu possa diverti-los a todos. Senhor, não te peço muito...Só quero viver o que vive qualquer televisor.


Naquele momento, o marido disse:

- Meu Deus, coitado desse miúdo! Que pais!

E ela olhou-o e respondeu:

- Essa redacção é do nosso filho!

Em mail de Ana Moura

03/10/09

A SUBLIMAÇÃO DA ESPERTEZA

A esperteza é uma característica cada vez mais apreciada na sociedade portuguesa. Como se desse uma certa cor ao ambiente de depressão. Nos dias de hoje, ser esperto em Portugal não anda muito longe de ser herói: alguém que, num clima desfavorável, atinge os seus objectivos sem olhar a métodos nem problemas de consciência. Estes novos heróis, que o povo começou por encarar com reprovação mas já se resignou a olhar num misto de complacência, admiração e inveja, nada têm de altruísta. Ao contrário do Super-Homem ou do bombeiro que resgata a criança do fogo, não querem salvar ninguém. São apenas espertos. Mais do que sobreviver, fazem pela vida. Alguns têm até mais do que uma vida, o que dá imenso jeito. Falhada a primeira encarnação, podem sempre partir para mais tarde regressar do além-túmulo, um local naturalmente mortiço onde é fácil recarregar baterias (…).

Os portugueses veneram a esperteza. Todos os dias a perseguem e tentam incorporar na escala do seu pequeno poder individual, seja como condutores no trânsito ou como vulgares mamíferos na fila do supermercado. Em Portugal, os bons exemplos são menosprezados. Não basta ser competente, honesto, colocar brio no que se faz e, se não for pedir muito, fazer uso frequente dessa coisa chamada inteligência emocional - um conceito que nada tem de transcendente e que, depois de bem espremido, resume-se a respeitar e saber viver com os outros.

Acontece que pensar para lá do umbigo é sintoma de fraqueza neste país. Confunde-se com ingenuidade, falta de pulso. É neste contexto que os espertos vingam. Que vivem, morrem e ressuscitam
FRANCISCO CAMACHO, iOnline, 17-08-09

06/09/09

OS IDIOTAS DOMINAM

(...) O líder dos Nine Inch Nails (NIN), Trent Reznor, decidiu fechar todas as suas contas em redes sociais. Face­book, Twitter, MySpace, não sobrou uma. "Os idiotas domi­nam", escreveu Reznor, no últi­mo texto do blogue associado ao site dos NlN (o único que continua no ar). Reznor foi entupido com comentários ofensivos, demonstrações de ódio e ameaças anónimas, que atingiram também a sua noiva. A saída estratégica do cantor gótico/metal/industrial veio apenas dias depois de o site TechCrunch ter cancelado a sua conta no FriendFeed, devi­do aos ataques sucessivos (e pessoais) aos autores da pági­na. Os exemplos sucedem-se e são alarmantes. Que se passa com as redes sociais? Já não é só a executiva que perdeu uma proposta de emprego na Cisco porque foi falar disso no Twit­ter; é também a adolescente de 13 anos que se suicida por cau­sa da mãe de uma ex-amiga, que se fez passar por um namorado virtual no MySpace. Precisamos de regras naquele que era suposto ser o espaço mais livre do mundo: a inter­net. É uma ferramenta podero­sa demais para que continue esta ausência de enquadramen­to legal, esta passividade peran­te o que é possível fazer com ela. Aceitar que apenas espe­lha o bom e o mau do mundo físico, e portanto deve deixar-se como está, é correr o risco de criar um monstro com mais malefícios que vantagens. Onde não apenas há artistas insulta­dos de cinco em cinco minutos, mas também adolescentes que não distinguem o real do vir­tual e se enforcam no armário do quarto depois de uma dis­cussão no MySpace.

ANA RITA GUERRA, i, 04-08-09

22/08/09

COMEÇA HOJE O RAMADÃO

O Ramadão é o nono mês do calendário islâmico. É o mês durante o qual os muçulmanos praticam o seu jejum ritual (suam, م وْ صَ ), o quarto dos cinco pilares do Islão: professar e aceitar do credo, orar cinco vezes ao longo do dia, pagar dádivas rituais, observar as obrigações do Ramadão e fazer a peregrinação a Meca.

A palavra Ramadão encontra-se relacionada com a palavra árabe ramida, “ser ardente”, possivelmente pelo facto do Islão ter celebrado este jejum pela primeira vez num período quente.

Uma vez que o calendário islâmico é lunar, não é celebrado todos os anos na mesma data, podendo passar por todas os meses e estações do ano, conforme a progressão dos anos, porém sua duração é entre 29 e 30 dias. O mês inicia-se com a aparição da lua no final do mês de sha'ban (oitavo mês no calendário lunar muçulmano).

Este período é um tempo de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade, e vivência profunda da fraternidade e dos valores da vida familiar. Pede-se ao crente maior proximidade dos valores sagrados, leitura mais assídua do Alcorão, frequência à mesquita, correcção pessoal e autodomínio.

Durante todo o mês é observado o jejum (incluindo as relações sexuais), da alvorada ao pôr-do-sol. O crente deve, não só abster-se destas coisas, mas também não pensar nelas e manter-se concentrado em suas orações e recordações de Deus.

Bem antes da alvorada, durante a madrugada, há uma pequena refeição (Su-Hoor) que substitui o pequeno-almoço habitual e é considerado uma bênção enviado por Deus, segundo o Alcorão.

No término de cada dia, com o início do crepúsculo é obrigação do muçulmano quebrar o jejum imediatamente, mesmo antes da oração, devendo pronunciar, segundo Maomé, as seguintes palavras: "Foi-se a sede, hidrataram-se as veias, e alcançou-se a recompensa, com a permissão de Deus".

Segue-se o iftar ( راطفإ ), refeição que reúne os membros da família e os seus amigos, numa celebração de fé e de alegria. Após esta refeição, é prática social sair com a família para visitar amigos e familiares e reunirem-se para a prática da oração.

Actualmente, com a ampliação do diálogo interreligioso, algumas pessoas de outras religiões são convidadas a partilhar este momento de convívio e é cada vez mais frequente que cristãos ofereçam e celebrem um iftar para os seus amigos muçulmanos.

Fonte: Wikipédia

16/08/09

O QUE ACONTECE QUANDO SE LAMBE UMA LESMA AMARELA


(…) para a maioria das pessoas do mundo industrializado, a natureza é uma parte cada vez mais rarefeita nas nossas vidas. As crianças cresceram, durante mil gerações, a explorar os campos, a coçar-se por causa de plantas venenosas ou urticantes e a descobrir, à sua própria custa, o que é um ninho de vespas. Hoje isso já não é verdade. Paul, um aluno do quarto ano de San Diego, explicou-se muito bem: "Prefiro brincar dentro de casa, porque é lá que há tomadas de corrente." (…)

Só 2% dos lares dos EUA ficam em quintas, comparados com os 40% de 1900. Um estudo de três gerações que incidiu sobre grupos de crianças de 9 anos constatou que, em 1990, o raio de acção que era permitido às crianças explorar livremente era de apenas um nono do que fora em 1970.

Um estudo britânico constatou que as crianças têm mais facilidade em reconhecer personagens de desenhos animados japoneses, como Pikachu, Metapod e Wigglytuff do que animais e plantas nativas como a lontra, o carvalho, o escaravelho...

Louv chama a isto "nature deficit disorder" (síndrome de défice de natureza) e associa-o aos aumentos da depressão, da obesidade e da síndrome de défice de atenção. Bem, não vou jurar por nada disso, mas a verdade é que o livro dele chega a referir um estudo que indica que contemplar peixes faz baixar substancialmente a tensão arterial. (…)

Ah, e a lesma? Já houve um tempo em que a maioria das crianças sabia que, se lamber a parte de baixo de uma lesma-da-banana, a língua fica dormente. Para eles, é melhor isso do que tornarem-se eles próprios uns bananas e umas lesmas, com os sentidos embotados por ficarem fechados dentro de casa.

NICHOLAS KRISTOF, iOnline, 06-08-09

02/08/09

ALUNOS COM MÉDIAS MAIS ALTAS VÊM DE FAMÍLIAS ABASTADAS


Os cursos com médias mais altas, como Medicina, são tendencialmente preenchidos por alunos de famílias com mais recursos, revela um estudo na Universidade de Lisboa (UL), que conclui que o acesso ao ensino su­perior não é "apenas uma questão de mérito".
O estudo foi dirigido pela socióloga Ana Nunes de Almeida, coordenadora do Observatório dos Percursos dos Estudantes da UL, a partir de dados recolhidos junto de alunos que se matricularam pela primeira entre 2003 e 2008.
Num documento com as principais conclusões, os autores destacam que a actual população universitária tem vindo a diversificar-se desde os anos 80, "do ponto de vista das suas origens sociais, dos seus percursos ou expectativas individuais", trazendo para as universidades uma "geração numerosa de jovens provenientes de grupos com menores capitais culturais e económicos".
No entanto, segundo os dados recolhidos, as vagas dos Cursos que requerem notas mais elevadas, como Medicina, Belas Artes e Farmácia, são preenchidas principalmente por alunos com origem em famílias mais favorecidas, cujos pais são "quadros dirigentes e superiores das empresas ou da administração pública, especialistas das profissões científicas e intelectuais, técnicos e profissionais de nível intermédio".
Por outro lado, "as faculdades com notas de acesso mais baixas (Letras, Psicologia e Ciências da Educação) recrutam sobretudo alunos provenientes de famílias mais desfavorecidas, as filhas e os filhos de empregados administrativos, pessoal dos serviços e vendedores, operários e artífices", salienta o estudo.
Os autores destacam que quase 60 por cento dos caloiros da UL provêem de famílias mais favorecidas.
''As modalidades de acesso não são portanto apenas uma questão de mérito individual, mas um assunto de família num cenário de selecção social", concluem.

in GLOBAL Notícias, 02-03-2009

31/07/09

MESCLA CULTURAL NUM PAÍS HOSPITALEIRO

A diversidade cultural portuguesa pode tornar-se desconcertante: recebemos folhetos de um restau­rante indiano na Praça dos Restau­radores, da mão de um goês que fala um inglês perfeito, e encontramos brasileiros a servir em pequenos cafés portugueses. Também há João, «barman» africano de uma casa de fado de Alfama, e o timorense sorridente que espreme sumo de laranja natural para turis­tas. Ainda assim, talvez a experiência mais singular seja ouvir português com sotaque chinês numa pequena mercearia, numa viela calcetada da bela cidade nortenha do Porto.
A demografia da nova Europa multicultu­ral foi redefinida por gente vinda dos países outrora ocupados pelas potências coloniais. No século XXI, em Portugal - país de extra­ordinários navegadores -, o resultado é uma mescla muito interessante, que enriquece um país já de si cheio de interesse.
STAN DENHAM, Sunday Telegraph (Sydney), 28.09.08

30/07/09

O PAPA E O PRESERVATIVO

Cada vez que o Papa se pronuncia sobre a contracepção, e nomeadamente contra o uso do preservativo, o mundo, em especial o Ocidente, entra em convulsões. Desta vez, foi numa viagem a África e desde a França à última ONG ou à última consciência humanitária ninguém se esqueceu de protestar. O Papa é um irresponsável e um criminoso. O Papa é uma espécie de encarnação do Mal. Há aqui com certeza um equívoco. Suponho que ninguém estava à espera que em África, sobretudo em África, Ratzinger não dissesse uma palavra sobre o assunto e, dizendo, dissesse qualquer coisa diferente da doutrina ortodoxa da Igreja. Muito pelo contrário, do ponto de vista dele, era ali, numa situação extrema e manifestamente ambígua, que devia reafirmar o que julga ser a verdade. Para quem combate (ou simplesmente conhece) a epidemia de sida em África, a posição do Papa não tem desculpa. Recomendar a abstinência e a fidelidade (e ainda por cima, a título profiláctico) nunca serviu de nada em parte alguma. E em África muitas populações resistem ao preservativo não apenas por ignorância mas porque ele nega ou ameaça a sua cultura e a própria organização da sociedade. A palavra do Papa vem dar força a essa resistência (que, de resto, não beneficia o catolicismo) e provoca directamente milhares, se não milhões, de mortes. A fúria universal contra Bento XVI não custa a compreender. Só que o Papa não se guia nem age por uma lógica "prática" e científica. Aceita, presumo, as vantagens do preservativo. Só que não o pode aprovar sem trair a Igreja.Os valores de Bento XVI não são os valores de um governo, de uma ONG ou de um indivíduo que tenta limitar o imenso desastre da sida em África. São valores de outra ordem. São valores de uma ordem religiosa, que cada vez menos se percebem ou respeitam no Ocidente. Não vale por isso a pena discutir a moral sexual da Igreja (e do Papa). Vale a pena garantir que ela não invade a esfera da liberdade civil. Ora Ratzinger não andou por África a pedir que se proibisse o preservativo. Pediu aos católicos que prescindissem dele, em nome de uma perfeição que os católicos escolheram procurar. A influência dele é, neste capítulo, deletéria? Inegavelmente. Convém que ela não alastre em África (e na Europa)? Sem a menor dúvida. Mas sem esquecer que o Papa está no seu direito e no seu papel.

20/07/09

HÁ 40 ANOS: PRIMEIRO HOMEM NA LUA




AINDA HÁ QUEM JULGUE QUE TUDO FOI MENTIRA
Quatro décadas depois do primeiro contacto do Homem com a poeira inerte da Lua, sondagens referem que 6 % dos ame-ricanos pensam que as alunagens não poderiam ter acontecido. A chegada à Lua, um dos maiores feitos da raça humana, foi um embuste elaborado e desenvolvi¬do para fomentar o orgulho patriótico dos EUA, insistem muitos.
Examinam as fotografias das missões, procurando sinais de falsificação e afirmam que conseguem ver a bandeira dos EUA a flutuar naquilo que era supostamente o vazio do espaço. Exageram os riscos para a saúde das viagens através das ondas de radiação que envolvem o nosso planeta; subestimam a proeza tecnológica do programa espacial americano; e denunciam como crimes todas as mortes ocorridas nesse programa, relacionando-as com uma conspiração a nível mundial.
E embora não haja provas credíveis que consubstanciem estas afirmações, e a mera improbabilidade de se conseguir inventar um enredo tão gigantesco e mantê-lo secreto durante 40 anos seja um desafio à imaginação mais delirante, os negacionistas continuaram a amontoar acusações até hoje. (…)
"Há pessoas inteligentes e perfeitamente normais que acreditam nessas teorias da conspiração", diz Philip Plait, astrónomo e autor que contesta, exaustivamente, ponto por ponto, os argumentos dos teóricos da conspiração no seu site "Bad Astronomy".
Embora as pseudoprovas dos teóricos da conspiração possam ser facilmente refutadas, diz Plait, compreender os processos pode exigir conhecimentos históricos, fotográficos e científicos e respectiva metodologia. "Dá trabalho; muito trabalho", diz ele, "e a maioria das pessoas não o faz E, assim, essas coisas criam pernas para andar".

10/07/09

ERA NO CAMPO QUE SE CONSUMIA MAIS PÃO EM PORTUGAL

Quem vive na cidade come mais leite, queijo e iogurtes do que os que vivem no campo. Já nas zonas rurais, há uma maior apetência por cereais e pão que nas áreas urbanas. Assim se comia em Portugal há 20 anos. E hoje? Ninguém sabe, pois estas conclusões são do único inquérito alimentar nacional já feito. Que data de 1985.Com a disseminação de hipermercados pelo país, a maior ligação entre interior e litoral e a diversificação da oferta o mais natural é que muito tenha mudado. No entanto, o inquérito feito pelo Instituto Ricardo Jorge há duas décadas dá conta que, em média, cada português ingeria (sem contar com as bebidas) 1549 gramas de alimentos por dia e, embora as opções variassem em relação à situação geográfica, tanto urbanos como rurais equilibravam-se, com ligeira vantagem dos habitantes das cidades, que deglutiam mais uns gramas.Os alimentos mais consumidos eram, por ordem, a batata (309,3 gramas), o pão (252,1), o leite e iogurte (203,6) e as hortícolas (198,3). Consumia-se mais carne que peixe, mas a diferença não era substancial - 92 gramas de peixe para 122 de carne. Numa coisa, portugueses do campo e da cidade igualavam: o consumo de açúcar. A gulodice não dependia da geografia. Só que a quantidade consumida - 31,3 gramas era muito inferior ao consumo real do país, que se situava nas 81 gramas. Ou seja, conclui o estudo, deve ser nos cafés e restaurantes que se fazia a maior parte da ingestão de doces. Outro dado interessante: consumia-se 11 por cento de alimentos a menos do que os que se encontravam disponíveis no mercado. O Algarve era o campeão dos comedores de peixe, os habitantes no distrito de Évora não eram muito adeptos da batata e da fruta, o Alentejo adorava leite, os de Bragança abusavam das gorduras e os de Lisboa eram os maiores comilões de todos. No estudo não surgem, porém, informações sobre o consumo de sal.
ANA FERNANDES, Público, 14-03-2009

03/07/09

O FIM DO PENSAMENTO ÚNICO

No momento em que escrevo, os portugueses dispõem de duas visões muito diferentes sobre como sair da crise em que nos encontramos. De um lado, o «manifesto dos 28» e, do outro, o «manifesto dos 52». Para o primeiro, a solução é limitar o endividamento, o que implica uma drástica redução do investimento público, fonte de muitos males, sendo os maiores o TGV, o novo aeroporto e as auto-estradas. Para o segundo, a prioridade é a promoção do emprego e a capacitação económica, o que implica um forte investimento público (não necessariamente nos projectos referidos) pois só o Estado dispõe de instrumentos para desencadear medidas que minimizem os riscos sociais e políticos da crise e preparem o país para a pós-crise.
As diferenças entre os dois documentos são, antes de tudo, «genealógicas». O primeiro é subscrito por economistas, a grande maioria dos quais ocupou cargos políticos nos últimos 15 anos, e colaborou na promoção da ortodoxia neoliberal que nos conduziu à crise. O segundo é subscrito por economistas e cientistas sociais que, ao longo dos últimos 15 anos, tomam posições públicas contra a política económica dominante e advertiram contra os riscos que decorreriam dela (...).

Mas as diferenças entre os dois documentos são mais profundas que a descrição acima sugere. Separa-os concepções distintas da economia, da sociedade e da política.
Para o manifesto dos 28, a ciência económica não é uma ciência social, é um conjunto de teorias e técnicas neutras a que os cidadãos devem obediência. Pode impor-lhes sacrifícios dolorosos - perda de emprego ou da casa, queda abrupta na pobreza, trabalho sem direitos, insegurança quanto ao futuro das pensões construídas com o seu próprio dinheiro - desde que isso contribua para garantir o bom funcionamento da economia entendida como a expansão dos mercados e a lucratividade das empresas. O Estado deve limitar-se a garantir que assim aconteça, não transformando o bem-estar social em objectivo seu (excepto em situações extremas), pois mesmo que o quisesse falharia dada a sua inerente ineficiência.
Para o manifesto dos 52, a economia está ao serviço dos cidadãos e não estes ao serviço dela. Os mercados devem ser regulados para que a criação de riqueza social se não transforme em motor de injustiça social (...). Cabe ao Estado garantir a co
esão social, accionando mecanismos de regulação e de investimento para que a competitividade económica cresça com a protecção social. Para isso, o Estado tem de ser mais democrático e a justiça mais eficaz na luta contra a corrupção.

24/06/09

40 ANOS DO PAI DE TODOS OS FESTIVAIS



Woodstock foi anunciado como uma "Exposição Aquariana", organizado na fazenda de 600 acres de Max Yasgur, na cidade rural de Bethel, Nova York, de 15 a 18 de Agosto de 1969. O festival é o exemplo de uma era hippie e de contra-cultura no final dos anos 60.

Trinta e dois dos mais conhecidos músicos da época apresentaram-se durante fim de semana de chuva. perante meio milhão de fãs.Apesar de tentativas posteriores de emular o festival, o evento original provou ser único e lendário, reconhecido como uma dos maiores momentos na história da música popular.

21/06/09

ZAHI HAWASS, GUIA SUPREMO DA ARQUEOLOGIA

Porque há-de a arqueologia egípcia ser monopólio do secretário-geral do Conselho Superior de Antiguidades do Egipto, Zahi Hawass? Quer seja na rádio, na televisão ou nos jornais, tem o monopólio deste assunto e de tudo o que lhe possa estar relacionado, de perto ou de longe.
Seja a erosão da pirâmide de Saqqarah, a investigação do túmulo de Cleópatra e do seu amante Marco António, a descoberta dos despojos de um ministro de Ramsés ou a conservação dos restos de uma simples ser­va da rainha Nefertite, é Zahi Hawass que é chamado a falar. Mais ninguém (…).
É melhor do que Indiana Jones, Hércules, Super-Homem e Batman todos juntos. Não se contenta em falar em nome do Egipto, dos faraós, de reis e rainhas, está igualmente con­vencido de que detém a verdade.
A cada controvérsia, Hawass põe o seu ca­pacete de cientista - ou antes, o seu chapéu de Indiana Jones - e profere certezas abso­lutas e indiscutíveis. Raros são os jornalistas que ousam produzir uma reportagem ou um documentário sobre o assunto sem o pôr a intervir pelo menos uma vez.
Seguro de si, emite as suas «fatwas» [sen­tenças de iluminação divina] arqueológicas e varre de uma assentada os pontos de vista dos outros: «Claro que não, estão todos en­ganados!», dita. Ou em inglês: «No, theyare wrong!». Outra alternativa: «Não dizem a verdade, de maneira alguma». Enquanto ele continua «absolutamente certo»!
A sua atitude está em total contradição com espírito científico. É o contrário da modéstia que caracteriza um verdadeiro investigador, que sabe que não há verdade absoluta. Egip­tólogos do mundo inteiro - e são numerosos - nunca diriam «eu sei», antes «suponho». Não falam de «certeza», mas de «hipóteses». Esta prudência está muito mais de acordo com as ciências humanas e com o trabalho sobre objectos que têm milhares de anos. Mesmo nas ciências ditas puras, esta regra impõe-se. Não assistimos já a foguetões que explodiram em pleno voo?
IMAD ABDERRAZEQ, Courrier Internacional, Junho de 2009

14/06/09

A PRAGA DE PIOLHOS QUE GEROU MODA

Na viagem da família real portuguesa para o Brasil, há mais de dois séculos, em duas das naus houve praga de piolhos, obrigando as senhoras - aristocratas incluídas - a cortar o cabelo de forma radical. Quando chegaram ao Rio de Janeiro, foram imitadas por se pensar que a cabeça rapada era moda na Europa. Por que é que no Reino Unido se conduz pela esquerda? Henrique VIII da Inglaterra rompeu relações com o papado de Roma por este não lhe conceder a anulação do primeiro casa­mento (com a espanhola Catarina), para poder casar com quem amava. O rei proibiu então que se entrasse em Londres pelo lado direi­to, para contrariar o costume romano. Porque no passado, o lado esquerdo era considera­do maligno, como a superstição dizia que o canhoto era ruim, a minha mãe obrigou-me a escrever com a mão direita, e hoje escre­vo com as duas, porque nunca deixei de ser canhoto.
AROLDO MARTINS, Plenitude, nº72, Junho de 2009

08/06/09

LÍNGUA TRAIÇOEIRA

As línguas podem realmente ser muito traiçoeiras. Quando pela primeira vez alguém me disse, casualmente num encontro social nos Estados Unidos da América, que era muito anal, a minha reacção foi empalidecer, engolir em seco e perguntar: "Excuse me?" O contexto e as circunstâncias não eram de forma nenhuma sexuais, pelo que aquilo que soava a uma revelação intima pareceu-me, no mínimo, desadequada.
Para os nativos da língua inglesa, referências à analidade desse tipo nada têm de sexual. Referem-se tão-só a um tipo de personalidade, caracterizado por uma certa necessidade de organização, pela aceitação das regras estabeleci das e por um gosto pela limpeza.
Anal é quem cumpre todas as regras de trânsito e recrimina todos os que não o fazem. São aqueles cujas secretárias no trabalho estão sempre impecável e irritantemente organizadas. São os que nunca vão de férias sem ter uma relação das despesas e listas exaustivas dos locais a não perder.

NUNO NODIN, Pública, 14-12-08

28/05/09

CABELOS CURTOS OU COMPRIDOS?

Eu elogio-vos, porque em todas as ocasiões lembram-se de mim e porque conservam as tradições conforme eu transmiti. Todavia, quero que vocês saibam que a cabeça de todo homem é Cristo, que a cabeça de toda a mulher é o homem, e a cabeça de Cristo é Deus. Todo o homem que reza ou profetiza de cabeça coberta, desonra a sua cabeça. Mas toda a mulher que reza ou profetiza de cabeça descoberta, desonra a sua cabeça; é como se estivesse com a cabeça raspada. Se a mulher não se cobre com o véu, mande cortar os cabelos. Mas, se é vergonhoso para uma mulher ter os cabelos cortados ou raspados, então cubra a cabeça.
O homem não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e a glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Pois o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher foi tirada do homem. E o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher foi criada para o homem. Sendo assim, a mulher deve trazer sobre a cabeça o sinal da sua dependência., por causa dos anjos. Portanto, diante do senhor, a mulher é inseparável do homem, e o homem da mulher. Pois se a mulher foi tirada do homem, o homem nasce da mulher, e tudo vem de Deus.
Julguem por vocês mesmos: será conveniente que uma mulher reze a Deus sem estar coberta com o véu? A própria natureza ensina que é desonroso para o homem ter cabelos compridos; no entanto, para mulher é glória ter longa cabeleira, porque os cabelos lhe foram dados como véu.

17/05/09

DESENRASCANÇO

Desenrascanço (loosely translatable as "disentanglement") is a Portuguese word used, in common language, to express an ability to solve a problem without having the knowledge or the adequate tools to do so, by use of imaginative resources or by applying knowledge to new situations. Achieved when resulting in a hypothetical good-enough solution. When that good solution doesn't occur we got a failure (enrascanço - entanglement). It is taught, more or less, informally in some Portuguese institutions, such as universities, navy or army. Portuguese people, strongly believe it to be one of the their most valued virtues and a living part of their culture. Desenrascanço, in fact, is the opposite of planning, but managing for the problem not becoming completely out of control and without solution.
PortugueseForDummies (+ aqui)

08/05/09

O ANEL DE RACHIDA

O olhar contemporâneo perdeu-se entre as armadilhas do Photoshop, uma ferramenta de tratamento digital de imagem cuja utilização desregrada está a reconfigurar a compreensão da realidade. A veracidade da fotografia – incluindo a jornalística – está em causa, depois de mais de um século de uma preguiçosa crença na imagem fotografada.
Dois dos casos mais recentes de manipulação – um mais 'dramático', o outro de cariz mais social – foram o dos mís­seis do Irão e o do anel da ministra fran­cesa da Justiça Rachida Dati. (…)
No segundo, ocorrido um mês antes [Junho passado], a ministra de Nicolas Sarkozy que serviu de símbolo para conquistar as minorias étni­cas apareceu na primeira página do "Le Figaro" mexendo na orelha com um dedo nu. O problema é que, na foto original, es­se dedo tinha um anel de diamantes avalia­do em 15.600 euros, que o jornal apagou.

Revista ÚNICA, 10-04-09

02/05/09

FAZER FALAR

Imagine-se um certo número de caixas, tipo caixas de sapatos, dentro das quais são distribuídos objectos, como por exemplo aqueles, aparentemente heteróclitos, que se­riam obtidos se se pedisse aos passageiros de uma com­posição de metro, que esvaziassem as malas de mão. A técnica consiste em classificar os diferentes elementos nas diversas gavetas segundo critérios susceptíveis de fazer surgir um sentido capaz de introduzir numa certa ordem na confusão inicial. É evidente que tudo depende, no momento da escolha, dos critérios de classificação, da­quilo que se procura ou que se espera encontrar.
O exemplo escolhido (objectos contidos nas malas das senhoras) pode parecer metafórico: estes objectos não constituem uma verdadeira comunicação, na medida em que não correspondem a um conjunto de significações voluntariamente codificadas pelo emissor; estes são índi­ces. Contudo, in extremis, o analista semiólogo pode con­siderá-los como sendo uma mensagem e submetê-los à aná­lise de conteúdo para os fazer falar. Como proceder então e segundo que objectivo? Uma repartição seguida de um desconto de frequências de cada «gaveta», pode ser rea­lizado segundo o critério do valor mercantil de cada objecto; caixa de pó de arroz, maço de cigarros, caneta, etc., serão divididos segundo o preço estimado para cada um deles. A classificação pode ainda ser feita tendo por critério a função dos objectos: objectos de maquilhagem, dinheiro ou seus substitutos, etc. A finalidade desta clas­sificação é deduzir daí certos dados, que dizem, por exem­plo, respeito à situação sociocultural das senhoras obser­vadas, em determinada hora, ou em determinado local de utilização do metropolitano.
(…) Este exemplo não está, assim, tão distante da realidade como pode parecer, uma vez que ainda há pouco tempo, os sociólogos planearam realizar uma análise de conteúdo dos caixotes de lixo. Esta análise pode, efectivamente, ensi­nar-nos muito sobre o comportamento dos habitantes de um determinado bairro, sobre o seu nível socioeconómico, as modalidades de desperdício numa sociedade de abundân­cia, ou sobre a evolução dos hábitos de consumo num pe­ríodo de crise, por exemplo.

24/04/09

"CENSURICÍDIO"

Contas feitas, José Cardoso Pires chegou a um resultado tão surpreendente como inquietante. No seu livro E Agora José, publicado em 1999, o escritor contabiliza 420 anos de censura, nos cinco séculos de existência de imprensa em Portugal. E não é necessário recuar muito, no tempo, para identificarmos um dos períodos mais odiosos e obscurantistas da História portuguesa, caracterizado pela «colonização cerebral, domesticação das vontades, apartheid do conhecimento, privação do saber, mentira premeditada, terrorismo intelectual», con­forme observa o jornalista César Príncipe, no seu livro Os Segredos da Censura.
Durante os 48 anos em que se sucede­ram três ditaduras, a militar, a de Oliveira Salazar e a de Marcelo Caetano, os «coro­néis do lápis azul» - assim foram alcunha­dos os censores por, no início, terem sido chefiados por um coronel e destruírem os escritos dos jornalistas com riscos daque­la cor, antes de optarem pela caneta Bic - interpuseram-se entre os emissores das mensagens informativas e os respectivos destinatários, para alterarem, manipu­larem ou tornarem vazias de sentido as notícias que pusessem em causa o discur­so oficial. Simultaneamente, devido à sua invisibilidade, remetiam para os autores a responsabilidade dos textos que recria­vam, como nota Orlando César no artigo O Censor como Enunciador do Discurso do Regime, publicado no Notícias da Amadora, em 2001.
Nestas circunstâncias, quem conhecesse Por­tugal apenas através da leitura dos jornais acre­ditaria que vivíamos no país das maravi­lhas. É que não havia aqui prisões políticas, nem contestação do re­gime, não havia greves nem manifestações de protesto, não se traficava droga, ninguém se suicidava, nenhuma mulher se prostituía, não havia mendigos, nem bairros da lata, nem epidemias, nem delinquentes menores, nem violações, nem pedófilos, nem infanticidas, não está­vamos na cauda da Europa nos indicadores culturais, sociais e económicos, nem existia corrupção. César Príncipe comenta: «As­sim se escreve a História: a grande como a pequena. Não espanta que, só depois do 25 de Abril, certas camadas populares e peque­no-burguesas teçam pessimismos em rela­ção à liberdade. Antes ( ... ) não se assistia a esta 'pouca vergonha' de se
conhecer o que sucede.»
VISÃO, 23-04-09

19/04/09

PROBLEMA "LEGO"

Quando Jorgen Vig Knudstorp assumiu a direcção da fabricante dinamarquesa de brinquedos [Lego] em 2004, o cenário era catastrófico. As vendas caíam a olhos vistos, o custo de produção era elevado e as dívidas não paravam de aumentar. Foi neste contexto que a ReD Associates foi chamada a intervir. Composta por antropólogos, sociólogos e psicólogos, esta consultora dinamarquesa já trabalhou para empresas como a Adidas, Vodafone e Coca-Cola mas teve na Lego um dos seus maiores desafios. "A empresa tinha perdido a sua relação com as crianças", explica ao PÚBLICO Christian Madsbjerg, membro da consultora. Para perceber o que se passava, a equipa de cientistas sociais passou quatro meses a trabalhar com um grupo de 100 crianças. Falaram e brincaram com elas, acompanharam-nas na escola, estiveram em casa com a família e, no final, descobriram onde estava o problema: todas as pressuposições da Lego sobre como as crianças gostavam de brincar estavam erradas."A Lego pensava que as crianças gostavam mais de playstations, de jogos fáceis e de encontrar instantaneamente diversão nas brincadeiras", explica Christian Madsbjerg. Mas a realidade era bem diferente. "Os miúdos continuavam a gostar muito de brincadeiras físicas, de coisas difíceis e não se importavam de perder tempo a descobrir como resolver o enigma de um brinquedo", conclui. A Lego teve então de mexer nas peças do seu negócio, acabar com alguns produtos e criar outros. As crianças voltaram.

10/04/09

O SENTIDO DAS PALAVRAS

(…) as palavras da linguagem comum, tal como os conceitos que elas expri­mem, são sempre ambíguas e o seu directo emprego científico, a partir do seu uso normal, sem as submeter a nenhuma transformação, con­duziria às mais graves confusões. Não apenas o sentido dessas pala­vras está tão mal definido que varia dum caso para o outro, ao sabor das necessidades, mas ainda, visto que a classificação de que elas resultam não procede de uma análise metódica e apenas traduz as impressões confusas das pessoas, acontece permanentemente que categorias de factos muito diversos são indistintamente reunidas sob uma mesma rubrica ou que realidades da mesma natureza recebem designações muito diferentes. Se portanto se aceita a acepção vulgar, corre-se o risco de distinguir o que deve ser confundido ou de confun­dir o que deve ser distinguido, ignorando-se assim o real parentesco das coisas e, consequentemente, a respectiva natureza. Só se explica comparando. Uma investigação científica só pode, assim, atingir o seu objectivo se se refere a factos comparáveis e tem tanto mais pro­babilidades de êxito quanto mais certa esteja de reunir todos aqueles que podem ser utilmente comparados. As afinidades naturais dos seres, porém, não poderão ser detectadas com um mínimo de segu­rança através de exame superficial como aquele de que a terminolo­gia vulgar resultou; consequentemente, o objecto das pesquisas não pode ser constituído pelos grupos de factos já organizados aos quais correspondem as palavras da língua corrente.

ÉMILE DURKHEIM, O Suicídio

26/03/09

"DESCONSTRUIR" OSAMA BIN LADEN

No dia 7 de Outubro de 2001, pouco menos de um mês as seguir aos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, foi difundida no mundo inteiro uma declaração em videocassete de Osama Bin Laden a condenar as actividades dos “infiéis internacionais”. Essa mensagem revela bem a ligação entre forças violentas do fundamentalismo religioso e o quadro mais secular de um mundo tecnologicamente sofisticado e globalizante.
Como é que se pode afirmar que uma mensagem em videocassete de um fanático religioso a partir de uma caverna das montanhas do Afeganistão, que condena a modernidade e a ordem secular, demonstra perfeitamente a dinâmica da globalização? Para melhor ilustrar esta aparente contradição, considere-se a com­plexa cadeia de interdependências globais.
Depois de fazer o seu percurso desde as isoladas montanhas do Afeganistão, o vídeo foi deixado, por um correio desconhecido, no exterior dos escritórios em Cabul da rede de televisão Al-Jazeera. Esta rede tinha sido lançada apenas cinco anos antes. No espaço de apenas três anos, contudo, a Al-Jazeera já oferecia à sua audiência do Médio Oriente uma ver­tiginosa gama de programas, transmitidos por poderosos satélites colocados em órbita por foguetes euro­peus e vaivéns espaciais americanos. Em 2001, a companhia intensificou ainda mais o seu alcance global quando assinou um acordo de cooperação com a CNN.
Uns meses mais tarde, quando a atenção do mundo se voltou para a guerra no Afeganistão, a Al-Jazeera era suficientemente poderosa para alugar equipamento a Reuters e a cadeia ABC, vender tempo de satélite à Associated Press e à BBC e conceber um inovador canal de notícias sobre negócios em língua árabe, juntamente com o outro parceiro americano da rede, a CNBC.
Sem o estorvo de fronteiras nacionais e obstáculos geográficos, a coo­peração entre estas tentaculares redes noticiosas tinha-se tornado tão eficiente que a CNN adquiriu e transmitiu uma cópia do vídeo de Osama bin Laden apenas algumas horas depois de ter sido entregue nos escri­tórios da Al-Jazeera em Cabul. Apanhada desprevenida pela incrível velocidade da troca de informações actual, a administração Bush pediu ao governo do Qatar para «pôr freio à Al-Jazeera», reivindicando que a rápida difusão do vídeo de bin Laden estava a con­tribuir para o aparecimento de sentimentos antiamericanos no mundo árabe ameaçando, assim, destruir o esforço dos Estados Unidos naquela guerra. Porém, não só o «estrago» pressentido já tinha sido feito, como segmentos do vídeo - incluindo o texto completo da declaração de bin Laden - podiam ser vistos na Internet por qualquer pessoa que tivesse acesso a um computador e um modem. O sítio da Al-Jazeera atraiu rapi­damente um público internacional pois o número de visitantes diários da sua página subiu em flecha para mais de sete milhões.
Os partidários do antimodernismo têm de recorrer aos instrumentos fornecidos pela globali­zação. O que é visível até mesmo no aspecto pessoal de bin Laden. O vídeo mostra que ele envergava, por cima das tradicionais vestes árabes, um casaco camuflado cujas cores claras traíam as suas origens russas, sugerindo que ele vestia esse casaco como uma lembrança simbólica da guerrilha travada pelos militantes islâmicos do Afeganistão contra os ocupantes soviéticos durante a década de 9O. A sua sempre presente Kalashnikov AK-47 era provavelmente de fabrico russo ou de uma das dezenas de fábricas de armamento espalhadas pelo mundo. É também possível que a arma tivesse chegado ao Afeganistão através de algum negócio de armas subterrâneo seme­lhante àquele que foi descoberto em Maio de 1996, quando a polícia de São Francisco apreendeu 2.000 AK-47 fabricadas na China e importa­das ilegalmente. Um olhar atento ao pulso direito de bin Laden revela ainda outro indício da dinâmica da globalização. Enquanto ele dirige as suas palavras de desprezo aos Estados Unidos e seus aliados com o microfone na mão, a manga ligeiramente subida deixa ver um reló­gio desportivo e o consenso aponta para um produto Timex. No entanto, dado que os relógios Timex são tão americanos como a tarte de maçã, parece uma grande ironia que o líder da Al Qaeda tivesse escolhido esse cronómetro específico.
A nossa breve desconstrução de algumas das principais imagens da videocassete torna mais fácil perceber por que razão as aparentemente anacrónicas imagens de um terrorista antimodernização em frente de uma gruta no Afeganistão captam, de facto, um pouco da dinâmica essencial da globalização.

20/03/09

FAVELAS DOS RICOS

Um estudo realizado em Braga por técnicos da Universidade do Minho mostra que existem, cada vez mais, ‘favelas dos ricos’; bairros de casas de luxo, sem relações de vizinhança e sem participação na vida social, disse à Lusa um dos responsáveis pela investigação.
«São casas construídas nas encostas de montes, com vista sobre as cidades, mas totalmente voltadas para o interior e para a privacidade», referiu Miguel Bandeira, geógrafo e um dos autores do estudo sobre as «favelas dos ricos».
As favelas dos ricos são vivendas unifamiliares, com uma média de 350 metros quadrados de construção e onde vivem, em média, três pessoas.
O estudo, que ainda não terminou, está a ser elaborado por Miguel Bandeira, geógrafo, Carlos Veiga, soci­ólogo e Patrícia Veiga, arquitecta, todos do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho.
(…) «Tendo por exemplo as favelas do Brasil, em Braga, temos encostas cheias de casas de luxo, construídas para dar segurança e privacidade a quem lá vive», referiu o sociólogo.
«São áreas do extinto mundo rural, onde os socalcos usados para a agricultura foram transformados em lotes de construção de vivendas de alta qualidade e onde os caminhos rurais foram alcatroados», explicou Miguel Bandeira.

Moradores de bairros de luxo, "ignoram" actividades e equipamentos da localidade onde vivem, disse à Lusa a tesoureira da junta de freguesia de Lamaçães.
A Serra de Espinho, entre os santuários do Sameiro e do Bom Jesus, pertence, entre outras, às freguesias de Lamaçães e Nogueiró.
Na encosta da serra, com vista para a cidade de Braga, nos últimos dez anos, foram construídas centenas de moradias de luxo.
«As famílias vivem em Lamaçães mas é como se não vivessem», disse Virgínia Esteves, tesoureira da junta de freguesia local. «Não estão recenseados aqui, as crianças não frequentam o centro escolar público, não frequentam a catequese da paróquia e as famílias não vão à missa da freguesia», salientou a mesma fonte.
Sem moradias à venda, a vida na encosta da Serra de Espinho, parece pacífica. Às 15hOO de um dia de semana, quando se toca à campainha, é a empregada que responde. Mulheres de países de Leste, brasileiras e portuguesas, as empregadas limitam-se a dizer que «os senhores não estão em casa» e que não sabem a que horas voltam.
Durante o dia, a 'favela' é um local com ruas vazias, sem automóveis e com muito sossego. «A ideia que dá é que os vizinhos nem se conhecem. Cada um tem a sua piscina, o seu terraço, quem tem crianças, instala um parque infantil no jardim e vivem dentro do seu lote de terreno», referiu uma empregada doméstica. «Eu só conheço as minhas colegas de as ver a colocar o lixo na rua e pouco mais mas olhe que as famílias são felizes aqui», salientou.
Lamaçães é uma freguesia «modelo» para os técnicos da Universidade do Minho. «Existem três tipos de habitantes: Os que vivem nas casas originais do mundo rural, que têm as crianças na escola local e que fazem a vida na freguesia. Há as famílias que residem em moradias em banda e que "fogem" aos apartamentos da cidade e há os que vivem nas moradias construídas nos antigos terrenos de cultivo. São estes os habitantes daquilo a que chamamos favelas», explicou Carlos Veiga.
in DIÁRIO DO MINHO, 09-03-09

08/03/09

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Neste dia [8 de Março], do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo.

07/03/09

ADOLESCENTES VICIADOS EM SMS

“Não conseguia”. É assim que Leonor Silva, 18 anos e utilizadora de telemóvel desde os 14, descreve como seria o cenário de 24 horas sem o aparelho.
Leonor não está isolada no que diz respeito ao “vício” dos SMS. Em Maio de 2007, Pedro Quelhas Brito, um professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, juntou 207 voluntários de quatro escolas desta cidade, dividiu-os em dois grupos, pré-adolescentes de 11 e 12 anos e adolescentes de 15 e 16 anos e concluiu que os primeiros enviavam uma média de 84,2 SMS por semana e os segundos, 235,6. Ao final do mês, os mais velhos remetiam assim cerca de mil mensagens.
“Entre as várias justificações, disseram-me que o fazem porque é mais barato, rápido, impessoal e podem escrever com uma terminologia que entendem. Um ou outro responderam que era útil para ‘bullying’”, recorda ao METRO. “É discreto e podem controlar o momento em que enviam e respondem às mensagens”, diz. Esta dependência dos SMS é potenciada pelos tarifários das operadoras, que oferecem mensagens escritas de borla. Uma rapariga norte-americana de 13 anos no último mês, enviou 14 258 mensagens de texto. Quando o pai da jovem abriu a factura mensal, de 440 páginas e no valor de dois mil dólares, pensou que se tratasse de um engano da operadora. Não era. Pegou numa calculadora e descobriu que, descontando as horas de sono, a sua filha, Reina, tinha escrito, em média, um SMS a cada dois minutos.
Na opinião a psicóloga Teresa Paula Marques, “tudo o que é excessivo cai no campo do patológico e a dependência dos SMS não foge a essa regra”. “Se o jovem passa a privilegiar o seu uso em detrimento dos contactos pessoais, acaba por não aprender a dar-se com os outros”, defende. Também para a psicóloga Susana Gonçalves, este comportamento, que se pode tornar “compulsivo”, é preocupante. Nas suas consultas, depara-se com pais apreensivos por verem os filhos quase sempre agarrados aos telemóveis. E também com casos de jovens em que o vício interfere nos estudos. “Há crianças que não dormem sem o telemóvel ao lado, e se se esquecem dele, é um drama”.
E porque o excesso de comunicação via SMS — ou Messenger, frisa a psicóloga — pode promover o isolamento dos adolescentes e minar o desempenho escolar, Susana Gonçalves aconselha os pais a “passarem tempo de qualidade com os filhos e a aprenderem a comunicar”.
ANDRÉ BARBOSA, Metro, 14-01-09 (adaptado)

21/02/09

IDEOLOGIAS

Raikes abanou a cabeça.
- Desculpe - disse ele - mas não acredito em si. É o de­tective privado do Blunt, sim senhor. - A sua expressão carre­gou-se quando ele se debruçou sobre a mesa. - Mas não conse­gue salvá-lo, sabe? Ele tem de marchar. .. ele é tudo o que ele representa! Tem de surgir uma nova ordem ... o velho e corrup­to sistema financeiro tem de desaparecer... esta maldita rede de banqueiros por todo o mundo, como uma teia de aranha. Têm de ser varridos do mapa. Pessoalmente não tenho nada contra o Blunt ... mas é o género de homem que odeio. É medíocre ... é presunçoso. É do tipo que só se consegue mover usando dinami­te. É o tipo de homem que diz: «Não se pode abalar os alicerces da civilização.» Mas não pode? Ele que espere e veja. É um obs­táculo ao Progresso e tem de ser afastado. No mundo de hoje não há lugar para homens como o Blunt ... homens que vivem pre­sos ao passado ... homens que querem viver como os pais deles, ou até como os avós! Não faltam homens assim aqui em Inglater­ra ... a velha guarda cheia de mofo ... símbolos inúteis e gastos de uma era em decadência. E têm de marchar, se têm! É preciso que nasça um mundo novo. Está a entender. .. um mundo novo, compreende?
Poirot suspirou e levantou-se.
- Vejo que é um idealista, Mr. Raikes - observou.
- E se for?
AGATHA CHRISTIE, O Enigma do Sapato

12/02/09

CRIACIONISMO OU EVOLUCIONISMO?

Há duzentos anos, neste dia (12 de Fevereiro) nasceu em Shrewsbury, Inglaterra, Charles Darwin. Quando, em criança, só se preocupava com a caça, os cães e os ratos, ninguém poderia prever que ele iria elaborar uma teoria revolucionária explicativa da evolução das espécies e, nomeadamente, da Origem do Homem.
Segundo essa teoria, as espécies que habitaram e habitam o nosso planeta não foram criadas independentemente, mas descendem umas das outras, ou seja, estão ligadas por laços evolutivos.
No entanto, a apesar do evolucionismo estar fundamentado em factos concretos, a sua aceitação não evoluiu muito, mesmo no país natal de Darwin – ainda hoje, muitos britânicos não acreditam nela. Lê-se no jornal Guardian que vinte e cinco por cento dos ingleses pensam que a teoria é verdadeira, outros vinte e cinco não têm a certeza. Os restantes pensam que a teoria é falsa ou sentem-se confusos.
Doze por cento dos inquiridos defendem o criacionismo – Deus criou o mundo como diz a Bíblia. Mas, diz James Williams, da Universidade de Salsbury, “o que os criacionistas fizeram foi embrulhar as suas crenças religiosas num manto de pseudociência”. Para ele, “ a evolução é uma teoria e um facto". Aceitamo-la com base em provas.
O resultado do inquérito não é nenhuma surpresa para aquele universitário porque, segundo ele, “as pessoas não percebem como funciona a ciência” e o evolucionismo está a ser “muito mal ensinado nas escolas”.


Fonte principal: Jornal Público

07/02/09

UM QI ACIMA DE 120 NÃO TEM VANTAGEM

O jornalista Malcolm Gladwell, que chegou a ser campeão de 1500 metros de atletismo, é considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, cobra 40 mil euros por conferência e lançou o seu livro: Outliers – a História do Sucesso. Mas se quer continuar a acreditar no mito do self-made man, que nasce pobre, trabalha horas a fio e, sem qualquer ajuda transforma-se num homem de sucesso, então é melhor não o ler. “Este tipo de explicações para o sucesso não funciona. As pessoas não se erguem do nada. O que verdadeiramente distingue as suas histórias não é um talento extraordinário, mas as extraordinárias oportunidades que tiveram”, defende.
Einstein tinha um quociente de inteligência (QI) de 150. Chris Langan, que ficou conhecido como o americano com um QI mais elevado, chegou aos 195: começou a falar aos seis meses e a ler aos 3 anos, aos 5 questionava a existência de Deus e, na escola, tirava notas elevadas em testes de línguas estrangeiras que não conhecia - só precisava de estudar três minutos antes. Mas não foi lon­ge: perdeu uma bolsa de estudo, desistiu da faculdade e foi porteiro grande parte da vida. Para Gladwell, isto significa que um Q1 supe­rior a 120 não tem vantagens na vida real.
Fundamental é o conceito de "inteligência prática": "Saber o que dizer a quem, saber quando dizê-lo e saber como dizê-lo para ob­ter o máximo efeito". Esta capacidade depen­de, sobretudo, da família em que nascemos. Para Gladwell, as crianças de classe média e alta estão em vantagem: são expostas a mais experiências, aprendem a trabalhar em equipa e a interagir de maneira mais confortável com os adultos - Chris Langan cresceu numa fa­mília pobre, com um padrasto alcoólico.
ANA TABORDA, Sábado, 27-11-08 (adaptado)

25/01/09

INFERNO - Cristiano Ronaldo

Saio para a rua e descubro que a cara de Ronaldo está em todos os jornais: um rosto vulgar, adiposo, des­lumbrado - e o cabelo em forma de crista galinácea, uma agressão estética que faz sucesso entre os lusitanos. Pare­ce que o mundo andou a discutir seriamente se Ronaldo era o melhor jogador de futebol. E respondeu que sim. A ideia já é sufi­cientemente infantil para merecer comentário: centenas de adultos, mer­gulhados em reflexão aturada, em busca das chuteiras geniais.
Mas, com Ronaldo, Portugal relembrou também um aspecto da história pátria: a forma como nacionalizamos feitos individuais par efeitos de propaganda patriótica. Durante 48 anos, não houve atleta, cantor ou artista que a ditadura não tenha usado como símbolo colectivo.
Veio a democracia. Mas, com ela, não veio a atitude saudável de conceder aos indivíduos o que apenas lhes pertence por talento, sorte ou traba­lho. O 25 de Abril, pelos vistos, não passou por aqui.
J.P. COUTINHO, Revista Única, 24-01-09 (adaptado)

17/01/09

ENAMORAMENTO

O que é o enamoramento? É o estado nascente de um movimento colectivo a dois. Esta definição coloca o problema do enamoramento de um modo novo, segundo uma óptica diferente daquela que nos foi transmitida pela psicologia, pela sociologia e pela própria arte. O enamoramento não é um fenómeno quotidiano, uma sublimação da sexualidade ou um capricho da imaginação, nem tão-pouco um sentimento sui generis inefável, divino ou diabólico, antes pode ser inserido numa classe de fenómenos já conhecidos, os movimentos colectivos. Entre estes tem certamente a sua individualidade muito própria, isto é, não pode ser confundido com outros tipos de movimentos colectivos, como a reforma protestante, o movimento estudantil, ou o feminista. Contudo, entre estes e o enamoramento há um parentesco muito próximo, as forças que se libertam e que actuam são do mesmo tipo, muitas das experiências de solidariedade, alegria de viver, renovação, são análogas. A diferença fundamental está no facto de os grandes movimentos colectivos serem constituí­dos por muitíssimas pessoas e estarem abertos ao ingresso de outras mais. Contrariamente, o enamoramento, sendo em­bora um movimento colectivo, nasce apenas entre duas pessoas, e o seu horizonte de dependência, qualquer que seja o valor universal que possa desencadear, está vinculado ao facto de ser completo com duas únicas pessoas.
Durkheim, falando dos estados de efervescência colectiva, escreve: «O homem tem a im­pressão ser 'dominado por forças que não reconhece como suas, que arrastam, que ele não domina. Sente-se trans­portado a um mundo diferente daquele em que decorre a sua existência privada. A vida aqui não é somente intensa, mas qualitativamente diferente. Ele desinteressa-se, esque­ce-se de si próprio, dá-se inteiramente aos fins comuns. Esta vida superior é vivida com tão forte intensidade e de forma de tal modo exclusiva que ocupa quase completamente as cons­ciências, das quais afasta mais ou menos completamente as preocupações egoísticas e vulgares». Durkheim, quando escreveu estas palavras, não pensava minimamente no enamoramento, tinha em mente a Revolução Francesa e outros grandes episódios revolucionários. Na realidade, a expe­riência que descreve é muito mais prolixa. Encontramo-la nos grandes processos históricos, como a Revolução Fran­cesa, o desenvolvimento do cristianismo ou do Islão, mas também em outros movimentos de pequenas dimensões. Todos os movimentos colectivos, na sua fase inicial, têm estas características. O facto curioso é que as palavras de Durkheim possam ser aplicadas também ao enamoramento.

FRANCESCO ALBERONI, Enamoramento e Amor

09/01/09

ADORAMOS PREVISÕES, QUASE NUNCA ACERTAMOS

Os seres humanos adoram fazer previsões - seja acerca dos movimentos das estrelas, das alterações da Bolsa de valores ou da cor que vai estar na moda na próxima estação -, e o começo de um novo ano evidencia esta tendência ainda mais do que é normal. Infelizmente, as previsões que a maior parte de nós faz estão erradas.
Por que razão é tão difícil fazer previsões?Bem, por muitas e variadas razões, mas fundamentalmente por duas. Em primeiro lugar, os indivíduos são muito mais difíceis de perceber do que parecem à primeira vista, não apenas por serem infinitamente complexos, mas também porque as formas que escolhemos para nos comportarmos dependem de subtis detalhes da situação. Nas décadas mais recentes, os psicólogos conduziram inúmeras experiências que mostram que pequenas mudanças na forma como a situação é definida, ou até factores à primeira vista irrelevantes, como a música ambiente ou o tipo de letra, podem todos ter impacto na tomada de decisão de uma pessoa. Em segundo lugar, os fenómenos sociais nunca são apenas o produto de pessoas individuais a tomar decisões, mas emergem de muitas pessoas a tomar decisões em conjunto e em ligação umas com as com as outras. Graças à Web, é possível assistir a este fenómeno. Os meus colaboradores Matthew Salganik e Peter Dodds e eu dirigimos uma série de experiências para tentar perceber como e por que razão algumas canções se tornam êxitos enquanto tantas outras nunca conseguem entrar para o Top 100. Recrutámos dezenas de milhares de pessoas para um site em que podiam fazer as suas escolhas em relação às músicas de que gostavam. Algumas pessoas apenas viam os nomes das canções e as bandas que as interpretavam, mas outras também reparavam em quantas vezes cada canção tinha sido descarregada anteriormente. Para além disso, dividimos este segundo grupo numa série de universos paralelos em que o historial se podia mostrar muitas vezes, revelando quanto do sucesso de uma canção depende das suas qualidades intrínsecas e quanto depende da influência dos nossos pares. Quando os participantes sabiam do que outros gostavam, as canções populares tornavam-se ainda mais populares e as canções impopulares ainda menos populares do que quando as pessoas faziam as suas escolhas de forma independente. Mas mais surpreendente ainda foi termos descoberto que se tornava também cada vez mais imprevisível perceber o que tornava determinadas canções nas mais populares - nalguns casos, a influência social levou a que a sorte e o acaso suplantassem o apelo intrínseco enquanto principais factores de criação de sucesso.
DUNCAN WATTS, in P2, 08-01-09